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Crônicas de Paris: o dia que tive Montmartre só para mim

8 de dezembro de 2016

“Eram mais de 23h, de um sábado, quando cheguei na minha casinha de férias e pensei no que iria fazer no meu último domingo antes de ir à Vichy… Estava morta de cansada, havia andado mais de 21km pela cidade, mas estava super contente pois conseguira um ingresso de 15 euros para assistir à uma Opéra Ballet com as grandes estrelas da Opéra de Paris. Mais um sonho realizado.

Comecei a fuçar na internet o que tinha para fazer e o que eu podia visitar. E me deu vontade de ir a Montmartre. Mas não queria uma visita turística, queria ir à missa na catedral de Sacre Coeur. Só tinha um porém, a missa era às 7h15 da matina. ~Poutz! Tô moída! Será que acordo cedo?~

Coloquei o despertador para 6h da manhã, porque de onde eu estava demoraria 45 minutos de metrô para chegar lá, e disse à mim mesma: ~acordou? Beleza, vai. Quis jogar o despertador pela janela? Agarra a coberta e descanse!~

E não é que quando deu 6h, acordei disposta e pronta pra me aventurar?

Sim, aventurar. Porque foi a primeira vez que eu senti medo de andar sozinha por Paris na vida.

Como em qualquer cidade, ~todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, bem no fundo todo mundo quer zoar~ já dizia Toni Garrido. Oh-bee-vee-ôoo que em Paris não seria diferente, ainda mais se as festanças começaram cedo, com a parada Gay que aconteceu no sábado à tarde.

Então a cidade tinha passado por uma madrugada de muita festa e sempre tem aqueles que quando reconhecem que o Limite tá chegando, pegam na mão dele e convidam para a saideira e embebedam o Limite também.

No bairro onde minha casinha de férias ficava, era um pouco afastado, mas já percebi olhares do tipo “o que essa garota está fazendo a essa hora? Isso não é hora de turista andar na rua…”. Mas fui até o metrô, comprei meu bilhete e segui o rumo.

Tive que fazer uma troca de linha em République. ~Ai, meu, senhor, do céu.~ Comecei a maratona da troca de linha passando pelos corredores, subindo e descendo escadas.

Pessoas extremamente bêbadas, cantavam alto e mexiam com todos que passavam por ali. Quando virei à direita dei de cara com um ser que parecia ter saído do The Walking Dead versão RuPaul. Senti um calafrio e pena ao mesmo tempo pois o ou a coitado(a) estava num estado de perdido que eu nunca tinha visto antes, andava sem rumo. Parecia que a vida dele tinha sido sugada por dementadores.

Peguei a outra linha e finalmente cheguei em Anvers. Ver uma estação de metrô que fervilha nos horários normais completamente vazia é estranhamente legal. Uma calmaria que você só consegue passar se acorda antes de toda a cidade.

Subi os degraus e cheguei à Rue Steinkerque. Vazia. Tudo fechado. Fui em direção ao Funiculaire. Subiram comigo 4 pessoas que falavam do turno de trabalho daquele dia. Ao entrar na catedral, que estava à meia porta aberta, passei pela segurança fazendo cara de costume, mas louca de contente de ter aquele bairro e aquela igreja só pra mim e para as pessoas que foram tão cedo quanto eu, agradecer.

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Não sou católica mas sou cristã e para mim era um momento muito importante. Eu queria estar em um local onde eu pudesse agradecer e sentir a energia mais pura da Gratidão Divina. A missa foi na capela atrás do coeur da catedral. Éramos 15 pessoas no máximo. O padre de origem Africana fez as mais belas leituras de uma passagem da bíblia que falava de perdão e compreender os momentos ruins que passamos, para poder crescer e reestruturar a nossa vida. Não podia ter sido melhor, ainda mais tratando-se de um ano que foi pesado para muitos.

O que me encantou mais ainda foi a miscigenação. Na hora do pai nosso eu ouvi umas 4 línguas diferentes, mas todos entoando a mesma oração universal.

Eu sou manteiga derretida assumida, me emociono fácil fácil, então já dá pra imaginar que nessa hora eu estava com o rosto lavado de tanto chorar. Até o padre, extremamente amoroso, veio me perguntar no final da missa se estava tudo bem e conversamos por alguns minutos.

Dando a volta para sair da Sacre Coeur, ouvi os cânticos das freiras da catedral. Era o momento delas de oração. Parecia cena de documentário, pois tudo que era necessário era sentar nos bancos olhar ao redor e apreciar toda a arte e todo o Amor presentes ali.

Saí da igreja com a alma leve mas cansada. Não queria mais turistar. Só voltar pra casa, pegar as malas e ir pra estação de trem.

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Então você dá de cara com o choque da realidade. Eram oito da manhã e as coisas começavam a abrir. Um grupo de baderneiros que ainda estavam naquela saideira perigosa estavam sentados nas escadarias de Montmartre e começaram a mexer comigo. Posso contar em uma mão as vezes que passei por alguma situação que me senti ameaçada, que senti medo por simplesmente ser mulher e estar sozinha. Esta foi uma delas. Apressei o passo, tomei um caminho maior porém distante das árvores e cantos, e segui direto para a rua principal. Por sorte ninguém tentou se aproximar ou me seguir.

Descendo a rua encontrei um Pret à Manger aberto. Comprei um suco e um croissant. Segui viagem de volta pelos metrôs já por volta das 9 horas. Outra Paris! Já começava a ter vida, mas ainda assim estava lenta.

É incrível como a cada hora sua percepção da cidade pode mudar. Uma simples ida à Sacre Coeur foi transformada em uma experiência singular. Esse é um dos principais motivos que gosto de viajar, saber que quando fujo do roteiro, quando me abro para oportunidades diferentes eu aprendo muito mais sobre a cidade e consequentemente sobre mim mesma.”

Espero que você tenha oportunidades assim nas suas viagens e não deixe de compartilhar conosco seus momentos especiais. Viajar é retornar mais vivo e conhecedor de si mesmo que antes do embarque. Se quiser ler mais histórias como essa, leia sobre o pedido de casamento da Notre Dame aqui e sobre um passeio de patins por Paris aqui.

Bisous

Dani

 

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Daniela Santos

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  1. Nicole disse:

    De arrepiar esse relato! Amei!

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Minha vida já deu muitas voltas, já morei em 3 cidades brasileiras diferentes, já viajei para lugares que nem meus pais dormiram ao saber da aventura. E não quero parar! Compartilho agora com você minhas aventuras, visões e experiências para que esse mundo lindo, cheio de diversidade, que nos transforma em alunos da vida seja fascinante e inspirador para você também.

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